erickcavalcanti

Baú

In Minhas palavras. on Sexta-Feira, Novembro 13, 2009 at 1:27 am

Os músculos, o cérebro, os dedos, as pernas, os ombros, o olhar e os óculos empenados – a desarmonia prevalecia em mim enquanto os rapazes a cortejavam. O problema não era nem os rapazes, previsivelmente ávidos por carne, mas a reação dela. Aquela reação superficial e besta de quem gosta de status. E isso aqui não é ciúme, carta de despedida ou intriga. Juro. É decepção, a típica e atípica decepção que sentimos ao idealizar – sem querer – as pessoas. Perdi tempo e confiança nos outros. “Céus, que sentimento é esse?”, eu repetia. E, quase instantaneamente, recebia as respostas da plácida Morte, juíza das partidas: – “Amor”. É, amor por algo que nunca existiu. Doía engolir as respostas goela abaixo, queimava a pretensão toda, mas cresci. Ou não cresci, talvez – mas algo mudou. Algo refinou minhas cordas vocais e veias, algo. Uma epifania, dentro mim. E finalmente entendo uma coisa trivial que minha poetisa preferida diz, sabiamente: “Coisas são como bolsas d’água em cima da cabeça”. Sorrio e fecho o baú.

Erick Cavalcanti – 5/11/09.

Vômito

In Minhas palavras. on Sexta-Feira, Outubro 16, 2009 at 6:45 pm

Não há vírgulas porque não quero dar continuação ao prolongamento deprimente dos últimos acontecimentos monótonos não há um objetivo específico de escrita há apenas essa náusea essa vontade de vomitar tudo que surgir à mente e desorganizar os bons frutos internos e acabar com esse gosto amargo de vocês de ambientes urbanos de malícias e tudo isso e tal – ponto.

Há uma quantidade incalculável de gentes, principalmente nos lugares improváveis que mais prezo. Ando escutando as fofocas maliciosas da cidade, os gemidos vulgares mesclados à sordidez. Não há uma sensualidade, inteligência, interesse e sentimento: há fome canibalesca e precoce. De carne, de dinheiro, de status fútil. E o excesso de lucidez maximiza tudo, tudo.

“Rejeição, sentimento contramão”, já dizia Ney Matogrosso.

Erick Cavalcanti.

Beijo literário

In Minhas palavras. on Segunda-feira, Outubro 12, 2009 at 8:02 am

Primeiro você pensa, por conseqüência, molha os sentimentos. Os sentimentos são assim: molhadíssimos. Então, molhados, eles escapam do corpo e fluidificam a realidade. Adicionam novos formatos à vida. Abrem brechas por entre os lábios, esparramam-se no papel, na imaginação e até mesmo no seu próprio professor: o silêncio; miúdo, brando e inacreditavelmente lúcido. O mágico, por mais banal, piegas e impessoal que soe, é que os sentimentos se espalham, mesmo quando não há som algum… Eles simplesmente saem, sem choro de parto.

Logo, afirmo: palavras são salivas apaixonantes; como são as salivas que nascem das bocas dos amantes. Escrever é dar um beijo no seu próprio silêncio. É um prazer individual, poético e revolucionário. E, claro, espiritual: transcende convencionalismos.

Erick Cavalcanti.