Os músculos, o cérebro, os dedos, as pernas, os ombros, o olhar e os óculos empenados – a desarmonia prevalecia em mim enquanto os rapazes a cortejavam. O problema não era nem os rapazes, previsivelmente ávidos por carne, mas a reação dela. Aquela reação superficial e besta de quem gosta de status. E isso aqui não é ciúme, carta de despedida ou intriga. Juro. É decepção, a típica e atípica decepção que sentimos ao idealizar – sem querer – as pessoas. Perdi tempo e confiança nos outros. “Céus, que sentimento é esse?”, eu repetia. E, quase instantaneamente, recebia as respostas da plácida Morte, juíza das partidas: – “Amor”. É, amor por algo que nunca existiu. Doía engolir as respostas goela abaixo, queimava a pretensão toda, mas cresci. Ou não cresci, talvez – mas algo mudou. Algo refinou minhas cordas vocais e veias, algo. Uma epifania, dentro mim. E finalmente entendo uma coisa trivial que minha poetisa preferida diz, sabiamente: “Coisas são como bolsas d’água em cima da cabeça”. Sorrio e fecho o baú.
Erick Cavalcanti – 5/11/09.