“(…) Não há mentiras nem verdades aqui, /só há música urbana.”
(Renato Russo, Música Urbana II)
Sweet Jane, sweet Jane, sweet Jane – do aparelho do som sobre a mesinha da sala aos quartos do segundo andar, Lou Reed e seus versos beat, dispersos por entre a turba em êxtase, turva. Brancos, negros, pardos: e a mesma indumentária. Cabelos longos – flower-power-hippie, black powers -, jaquetas com um sem-número de pregos na altura dos ombros, jeans desbotados, spikes, all-stars, botas, cheiros variados – de fumo, de bebida, de couro. E ela, sentada num sofá mofado, contrastante entre o ambiente que não a pertencia – alta, longilínea, loira, os traços demasiado femininos sob a maquiagem pesada: caliginosa & etérea: darkérrima & santa: o oposto de si mesma a cada gesto. Heavenly wine and roses/seem to whisper to me,/when you smile. O primeiro olhar – e qualquer coisa dentro doida ansiando não ser o último. Aproximei-me. Passos vagarosos, altivos.
- Oi.
- Oi.
- Prazer.
- É meu.
O primeiro contato – e qualquer coisa dentro doida transmutando encanto em medo. Sweet Jane: afiada como faca, escorregadia como água. Ébria. O tom amargo de quem não sabe ou não agüenta viver, olheiras encobrindo o azul-turquesa dos olhos – lânguidos olhos -, solidões escorrendo das narinas delicadas, cordas vocais em ritmo chopiniano. Linda, meio vamp. Cruzou as pernas, claricianamente, ajeitou o vestido lollita no busto e me interrompeu de mim mesmo:
- Sina, falta de tino. Sei lá, cara.
- Quê?
- Espera. Havia trocentos clichês românticos entre a gente, falo do meu ex, seguidos desse, dessa… dessa coisa.
- Heim?
- Silêncio, talvez, é: silêncio. Lasso silêncio, atípico silêncio, que se sobrepunha às nossas expressões, aos vintages largados pela sala, à própria sala, ao apartamento inteiro, ao que havíamos sendo e ao que éramos naquele instante em que nos despedimos.
- Silêncio?
- É, o silêncio, um tipo diferente de silêncio, meu bem, bem meu, bem pessoal, bem nosso, quase como o auge do nada, talvez o próprio nada, que passava-nos despercebido por não sermos suficientemente desprendidos do óbvio.
- O silêncio.
- Entre os beijos, nada, entre as utopias, nada, entre o mais inconfessável que vinha à tona às vezes, nada: um gênio mitológico travestido de acaso, esse silêncio, o tipo de coisa que existe independendo de egos e razões.
Sorriu como se eu entendesse o que ela tentava dizer. Tirou djarun black do maço no bolso.
- O silêncio é um sinal de romantismo, só fui perceber isso tarde, ele ainda não percebeu. É quando a gente sufoca o sexo e qualquer possibilidade de diálogo e ele continua lá, maduro e desenvolvido, refulgente e colossal, diante da nossa insignificância humana.
Deu uma tragada, suspirou.
- Tá me entendendo? O amor é coisa dos deuses, não duvido: desses sádicos que gostam de ver-nos ensandecidos, que fizeram de nós animais deficientes, decadentes. Deficientes porque vemos as coisas como elas são, captamos o acaso absoluto do dia-a-dia, caótico. E decadentes porque, cê sabe, somos todos um bando de alienados submersos em ignorância transcendental, piores que Zeus e seus irmãos pederastas.
- Qual é o teu nome?
- Ele me chamava de ‘amor’, assim, simplória e toscamente: “amor.” Meu nome mesmo não importa, eu nem mais. Que foi, não gosta de cigarro? Peraí. Então. Os outros, principalmente minha mãe, dizem que eu falo dele assim com certa freqüência porque eu não sei ficar cantando gatinhos ou fazer amizade com “as pessoas da minha idade”. Tô conversando com você, não tô?
- É. Cê tá.
- Ele dizia que eu sou obsessiva, loucona. “Inábil à vida tu és, Natasha”, diziam os parentes-parênteses: parênteses, entendeu? Deixa. Eu não sei…
- O quê?
Long pause. Até que pude vê-la. Não diria entendê-la, mas senti-la, sentir suas lágrimas discretas – do coração, da mente, do que quer que fosse – caindo sobre o concreto sujo do ambiente que já não pertencia a ninguém. Três lágrimas, três palavras:
- Me sinto só.
Meu coração está em pedaços. Gostaria que quem está só não tivesse como companheira apenas esse estado, pois há outros melhores. Não saberia dizer como há de se ajudar alguém que se afasta de ajuda. O mundo é assim mesmo, mil voltas, nenhuma volta: tudo muda e querendo ou não, a única pessoa que tem capacidade de nos ajudar somos nós mesmos. Afundar-se cada vez num poço não é garantia que se encontrará água. Com uma espécie de dor, digo que todos meus melhores e mais sinceros comentátios já foram feitos à pessoa. – Erick, cada vez mais fico feliz de visitar esse blog. Procure seus objetivos sempre!
… De qualquer forma, mesmo que o nome só tenha servido de inspiração, o texto está ótimo. Me fez recordar uma amiga, mas também me senti em cena. Parabéns!
Meu coração está em pedaços. Gostaria que quem está só não tivesse como companheira apenas esse estado, pois há outros melhores. Não saberia dizer como há de se ajudar alguém que se afasta de ajuda. O mundo é assim mesmo, mil voltas, nenhuma volta: tudo muda e querendo ou não, a única pessoa que tem capacidade de nos ajudar somos nós mesmos. Afundar-se cada vez num poço não é garantia que se encontrará água. Com uma espécie de dor, digo que todos meus melhores e mais sinceros comentátios já foram feitos à pessoa. – Erick, cada vez mais fico feliz de visitar esse blog. Procure seus objetivos sempre!
(será que o comment vai agora? tive impressão que não tinha conseguido xD)
Todos estamos só e somos inimigos de nós mesmos, os maiores. Cara, tu escreves bem de mais. Uma perfeita confusão subentendida em cada frase.